As variáveis ambientais e climáticas influenciam as condições da saúde humana. Muitas doenças infecciosas podem ser sensíveis ao clima por causa de diversos fatores, como o tipo e a abundância do vetor ou a forma de transmissão. Alterações no tempo e no clima podem afetar a ocorrência de doenças infecciosas.
Contudo, a relação entre doenças infecciosas e variáveis climáticas não é linear e mecânica, o que dificulta a avaliação dos impactos das mudanças climáticas. Em primeiro lugar, os dados disponíveis a respeito de muitos agentes patogênicos tem como foco a incidência de doenças em humanos. Não se avalia a prevalência de infecção em vetores ou hospedeiros, e raramente o período de tempo estudado é longo o suficiente para abranger alterações climáticas.
Em segundo lugar, o clima atua como um fator externo na dinâmica das doenças infecciosas. Mas há fatores internos relevantes, como as flutuações na imunidade e na susceptibilidade das populações, ou mesmo desenvolvimentos de caráter social. Um exemplo deste último fator são o crescimento demográfico e a mobilidade, que podem modificar os limites espaciais de infecções transmitidas por vetores.
Dessa forma, é desafiador avaliar as conseqüências das mudanças climáticas sobre a saúde humana. Para auxiliar na construção desse conhecimento, estudo de cientistas dos Estados Unidos e do Reino Unido revisou os métodos de análise da relação entre as variáveis climáticas e a transmissão de doenças infecciosas, discutindo formas de gerar projeções futuras dos efeitos do clima sobre a saúde.
Atribuir ao clima uma alteração em doenças infecciosas demanda atender a três critérios, segundo o estudo: a alteração deve ocorrer no tempo certo, no lugar certo, e na direção certa. Os dois primeiros critérios envolvem uma análise espacial e temporal de dados. O último critério diz respeito ao entendimento do mecanismo por meio do qual o clima pode interferir na incidência das doenças infecciosas.
De acordo com o estudo, a fim de se definir o mecanismo causal, deve-se conhecer a ecologia da interação entre o ser humano e o agente patógeno, incluindo a via de transmissão. Outra forma de estabelecer o mecanismo é, quando possível, a realização de experimentos.
Mas os cientistas argumentam que não é suficiente apenas identificar a direção certa na relação entre clima e doenças infecciosas. Eles ressaltam a necessidade de quantificar o mecanismo que liga um ao outro. Para tanto, em vez de análises estatísticas, sugerem a utilização de modelos computacionais, por meio do qual seria possível construir uma estrutura hipotética, formada de etapas causais ligando as variáveis climáticas às flutuações na incidência das doenças.
Todavia, deve-se tem mente que a tarefa de quantificar o mecanismo causal entre o clima e as doenças infecciosas é bastante complexa. Isso se deve por dois aspectos. Um deles é o fato do clima mediar a ocorrência de doenças infecciosas através de múltiplos mecanismos. O outro é que, muitas vezes, as flutuações nas variáveis climáticas são mais importante do que os níveis médios.
Uma vez que o mecanismo tenha sido identificado, o próximo passo é determinar se, no espaço e no tempo, as mudanças nas variáveis climáticas estão ligadas a mudanças na incidência das doenças. Os desafios aqui dizem respeito ao conhecimento de variações espaciais, variações sazonais e multi-anuais, e a combinação de diferentes escalas espaciais e temporais.
Entre os métodos de análise das ligações entre o clima e as doenças infecciosas, o estudo menciona a análise estatística e os modelos computacionais dinâmicos. A análise estatística busca identificar, em um espaço e tempo específicos, correlações entre séries de dados climáticos e a distribuição de casos observados de doença. Os modelos computacionais detalham os caminhos e mecanismos pelos quais o clima está ligado à ocorrência de doenças infecciosas.
Apesar de reconhecer a utilidade dos dois métodos, os cientistas sugerem a disseminação do uso de modelos computacionais. Em casos nos quais as mudanças climáticas podem influenciar a transmissão entre hospedeiros ou através de vetores, os modelos computacionais oferecem mais recursos para compreender e projetar os impactos sobre as doenças infecciosas. Nesse sentido, segundo os cientistas, ainda há muito por fazer.
Mais informações: Identifying climate drivers of infectious disease dynamics: recent advances and challenges ahead
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