Segundo os pesquisadores, as empresas contribuem significativamente para o aumento das emissões de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, há um discurso que as retrata como agentes fundamentais para o desenvolvimento de ações de mitigação do aquecimento global e de adaptação às mudanças climáticas.
Um dos argumentos, por exemplo, sustenta que o mercado é apresentado como promotor de formas inovadoras para descarbonizar a economia.
Os pesquisadores investigaram se, na prática, o discurso que retrata a iniciativa privada como fundamental para o combate ao aquecimento global possuía alguma validade. No período entre 2005 e 2015, eles desenvolveram uma pesquisa em profundidade das 5 principais corporações da Austrália de setores diferentes – banco, mídia, seguros, indústria e energia. Todas elas se apresentavam como se estivessem na vanguarda das ações relacionadas às mudanças climáticas.
Ao longo dos dez anos da pesquisa, o tema do aquecimento global ganhou centralidade no debate político e econômico do país, originando, de acordo com o estudo, uma série de riscos e oportunidades para as empresas. No entanto, as ações propostas pelas companhias, ambiciosas quando do lançamento, foram degeneradas ao longo do tempo e não se concretizaram.
Esse padrão de fracasso foi comum às 5 empresas avaliadas, apesar de atuarem em diferentes setores da economia. No final, as preocupações comerciais corriqueiras se sobrepuseram às iniciativas de combate às mudanças climáticas. O processo compreendido entre o lançamento das ações climáticas e a sua desconfiguração ou quase abandono foi dividido pelos pesquisadores em três fases distintas.
Na primeira, a mudança climática era descrita por executivos e pelas empresas como uma oportunidade de negócio. Utilizavam-se termos como ‘inovação’, ‘liderança’, ou ‘oportunidade’ quando se aborda o assunto.
Tratava-se, no fundo, da ideia de que se resolveria o problema na condição de que as companhias ganhem dinheiro ao fazer isso. O produto das empresas passaria a ser positivo tanto para a economia quanto para o meio ambiente.
A segunda fase consistiu em colocar em prática as iniciativas propostas. Nesse momento, implementaram-se práticas de aumento da eficiência, como, por exemplo, a redução do consumo de energia, a troca de iluminação, o de energia renovável, ou a promoção de serviços ‘verdes’.
Tais ações foram divulgadas muitas vezes na forma de estudos de caso corporativos ligados às mudanças climáticas. Comunicaram-se os benefícios das medidas adotadas para funcionários, clientes, organizações não governamentais e partidos políticos. De acordo com os pesquisadores, a comunicação auxiliava na conscientização interna da empresa.
Contudo, com o passar do tempo, emergiu a terceira e última fase, na qual se revogaram as iniciativas implementadas. Quebrou-se o compromisso entre o discurso de mercado, voltado ao lucro e à maximização de valor aos acionistas, e o discurso ambiental. Na prática, o compromisso foi somente temporário.
Nesta fase, o foco na prioridade comercial das empresas reapareceu. Com isso, teve lugar, por exemplo, estratégias do tipo ‘volta ao básico’, com foco no desempenho mercadológico e financeiro. Como consequência, as iniciativas ligadas às mudanças climáticas acabaram absorvidas e diluídas em outros programas mais gerais, como de sustentabilidade ambiental.
O estudo registrou um conflito entre os imperativos básicos do lucro e do valor para os acionistas, em geral de curto prazo, e as demandas de mitigar o aquecimento global e se adaptar às suas consequências. A conclusão é de que as empresas são particularmente inadequadas para lidar com o problema.
A fim de mitigar o aquecimento global, os pesquisadores recomendaram o estabelecimento de regulamentações, limitando as emissões de carbono e o uso de combustíveis fósseis. Alertam que não se pode depender somente das corporações e dos mercados.
Fonte: The Conversation
Mais informações: Wright, Christopher, and Daniel Nyberg. “An inconvenient truth: How organizations translate climate change into business as usual.” Academy of Management Journal 60.5 (2017): 1633-1661.
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