Entre os centros de pesquisa brasileiros, a EMBRAPA foi pioneira na realização de estudos sobre os possíveis efeitos das mudanças climáticas sobre as doenças e pragas agrícolas. O livro faz parte da comemoração de 35 anos de fundação da EMBRAPA, trazendo as projeções climáticas futuras para o Brasil, bem como as potenciais consequências fitossanitárias do aquecimento global. As consequências para o agronegócio brasileiro podem ser significativas.
Adaptando o manejo do café
A ferrugem do café mancha e faz as folhas caírem, prejudicando a produção.
O aumento da concentração atmosférica de gás carbônico – CO2 – pode ter um efeito benéfico sobre o crescimento dos pés de café, a chamada fertilização do CO2. Com isso, ficaria reduzida a severidade da ferrugem. Entretanto, o aumento da temperatura tem o potencial de reduzir o período de incubação da doença, particularmente durante o inverno e a primavera. Nesse cenário, a epidemia da ferrugem ficaria mais dependente da ocorrência de períodos chuvosos.
A continuidade de tratamento genético pode aumentar a resistência do café à ferrugem. O manejo químico e biológico precisarão se adequar às novas condições climáticas, incluindo número e época de aplicação de produtos.
Favorecimento do eucalipto e de suas doenças e pragas
O cultivo do eucalipto também é vulnerável à doenças foliares. Um dos maiores produtores mundiais, o Brasil possuía em 2015 cerca de 5,6 milhões de hectares plantados, quase 12% concentrado na região Sul. A mais preocupante doença do cultivo de eucalipto é a ferrugem causada pelo fungo Puccinia psidii Winter.A doença atinge mudas e árvores jovens ou novos brotos, geralmente com até dois ou três anos de vida, dependendo da espécie. O fungo produz prejudica a fotossíntese da planta, diminuindo o rendimento dos cultivos. Em casos severos, diminui a produção de celulose ou até mesmo leva a planta à morte. Condições climáticas favoráveis à ferrugem combinam temperaturas amenas e alta umidade relativa do ar.
Atualmente, condições climáticas favoráveis à doença ocorrem na região Sul do Brasil em maior parte no verão em relação às outras estações. Durante o inverno, as condições são usualmente desfavoráveis. A projeção de cenários futuros sugere que as regiões de altitude podem se tornar muito favoráveis à doença. Em grande parte da região Sul, o inverno passaria a apresentar condições favoráveis ou muito favoráveis. Ao mesmo tempo, o inverso ocorreria durante o verão, devido ao aumento da temperatura, redução da umidade relativa do ar e das chuvas.
O percevejo bronzeado ataca as folhas do eucalipto
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As projeções de cenários futuros sugerem que o percevejo-bronzeado encontrará condições que favorecem a diminuição do ciclo e o aumento do número de gerações ocorridas em um ano. Dessa forma, é possível que as mudanças climáticas levem a um aumento populacional do inseto.
Piores condições para o pêssego
O Brasil produz anualmente cerca de 216 mil toneladas de pêssegos, em uma área de 19 mil hectares. O estado do Rio Grande do Sul responde por 65% da produção nacional. O pessegueiro tem uma forte relação com o clima. A planta depende do frio do inverno para completar o período de dormência, a fim de que a brotação e floração ocorram uniforme e normalmente. Entre as principais pragas do pessegueiro estão a mosca-das-frutas sul-americana, a mosca-do-mediterrâneo, e a mariposa oriental. As três espécies atacam os frutos e podem causar perdas econômicas.
As mudanças climáticas podem ameaçar a produção de pêssego no Brasil, em especial por causa do aumento das temperaturas. O impacto estaria ligado ao inverno se tornar mais ameno, de forma que não se verifique mais o acúmulo mínimo de horas de frio para a produção frutos de qualidade. Além disto, o aquecimento favorece o número de gerações das três pragas, o que poderá levar ao aumento de suas populações.
O mogno e a mariposa
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Uma única lagarta da mariposa do mogno é capaz de causar enormes prejuízos
Foto: mognobrasileiro.com.br
O inseto é considerado a principal praga florestal da América Latina e do Caribe, atacando outras árvores pertencentes à subfamília Swietenoideae – como, por exemplo, o cedro-rosa. O ciclo biológico do inseto, incluindo fases que vão de ovo a adulto, está ligado às condições climáticas. Os cenários futuros de mudanças climáticas indicam, em todas as regiões do país, uma tendência de diminuição do ciclo biológico da mariposa e do aumento do número de gerações ocorridas em um ano.
A importância da continuidade da pesquisa científica
Outros artigos do livro da EMBRAPA abordam, entre outros, as consequências das mudanças climáticas nos cultivos de algodão, cana-de-açúcar, oleaginosas e nas pastagens. Ressalte-se que os cenários futuros projetados pelos modelos climáticos são aproximações e sempre limitados. Além disso, os impactos das mudanças climáticas se verificarão sobre o conjunto de espécies que compõem um ecossistema e de suas relações e interações umas com as outras. É preciso aprofundar a pesquisa científica, a fim de melhor compreender essas relações, e monitorar continuamente a trajetória das variáveis climáticas.Mais informações: Aquecimento Global e Problemas Fitossanitários
Imagem: Flickr/ Maria Hsu



