A reinvenção das cidades para limitar o aquecimento

A reinvenção das cidades para limitar o aquecimento
Limitar o aquecimento global a 1,5°C exigiria profundas mudanças nas cidades, que vão muito além da substituição de energia fóssil por fontes sustentáveis. Seria crucial também alterar a forma de urbanização, o consumo doméstico e o uso do tempo, afirma estudo de um grupo de cientistas da Áustria, da Finlândia e do Japão.

Mais da metade da população mundial vive em zonas urbanas e suburbanas, proporção que deverá subir no futuro, cita o estudo. Inseridas em redes globais de produção e consumo, os impactos das cidades extrapolam seus limites administrativos. É o caso, por exemplo, da pegada de carbono.

A forma e a densidade urbana, o consumo doméstico e o transporte constituem fatores centrais para o uso de energia e para as emissões de gases de efeito estufa. Mas uma soma de rotinas e práticas habituais da vida cotidiana das cidades também é decisiva.

Uma relação pouco abordada tem sido entre as condições socioeconômicas das famílias, os usos do tempo e as pegadas de carbono das cidades. Em outras palavras, o equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional. Os horários de trabalho e a renda estruturam o dia-a-dia dos habitantes urbanos. A partir deles, organizam-se outras atividades e se condiciona os bens e serviços consumidos.

Para investigar o papel da forma urbana na estruturação da relação entre consumo doméstico, uso do tempo e pegadas de carbono, o estudo revisou a literatura publicada entre 2014 e 2017. O objetivo foi identificar as descobertas recentes da ciência e as implicações para o mitigação do aquecimento global pelos centros urbanos.

As cidades podem influenciar os padrões de uso do tempo das famílias. Podem estimular atividades cotidianas com baixa emissão de carbono na vida cotidiana. A mobilidade urbana em áreas densas, com uso misto da terra e infraestrutura adequada, tem potencial de gerar baixas ou mesmo nenhuma emissão de carbono.

Também é possível, nas cidades, oferecer  espaços de recreação com pequena pressão de consumo, como parques, ou centros de esporte e lazer. 

No entanto, tendências como a suburbanização parecem contrapor a potencial redução de emissões originada pela economia de escala. Além disso, famílias de alta renda, mesmo com arranjos domésticos e de mobilidade eficientes em termos de energia, possuem pegadas de carbono maiores.

O consumo de status e a desigualdade influenciam diretamente as pegadas de carbono dos centros urbanos e a possibilidade de mitigação.

Ainda que a forma e a densidade urbana, o consumo doméstico e o transporte levem à diminuição das emissões, há dois aspectos relevantes. O primeiro diz respeito às emissões indiretas, associadas aos bens e serviços consumidos pelas cidades.

O segundo é que ao aumento da eficiência em termos de custo ou tempo não garante a redução das emissões. Os ganhos gerados pela eficiência podem ser perdidos, caso ocorra expansão do consumo ou das atividades emissoras. 

Os pesquisadores recomendaram algumas estratégias para reduzir as emissões das cidades. Deve-se monitorar as emissões, tendo como base o consumo e as atividades praticadas no território. Só assim é possível observar e atribuir reduções das emissões.

As políticas precisam intervir nos padrões de uso do tempo e do consumo, estruturalmente e contextualmente condicionados. Por exemplo, promovendo a flexibilização do trabalho ou criando espaços de lazer ou outras de baixo consumo.

Finalmente, a meta de 1,5°C demandaria mudanças sociais mais intensas nos centros urbanos para alterar a distribuição do tempo profissional e pessoal, bem como o consumo.

Seria preciso, em resumo, reinventar as cidades.

Mais informações: Household time use, carbon footprints, and urban form: a review of the potential contributions of everyday living to the 1.5 °C climate target
Imagem: Pixabay