Um dos elementos fundamentais da política climática internacional é o indicador da temperatura média global. O acordo de Paris, por exemplo, estabeleceu como meta limitar o aquecimento global a bem abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais, com esforços para que se mantenha em 1,5°C.
Mas a temperatura média global constitui um indicador produzido pela ciência, cuja estimativa varia de acordo com a metodologia e as premissas adotadas. E as diferenças entre os inúmeros indicadores da temperatura média global não são apropriadamente discutidas dentro e fora da comunidade científica, sugere estudo de um time internacional de cientistas.
Segundo o estudo, a adoção da temperatura média global como indicador se deve ao fato de que muito impactos do aquecimento se intensificam com o aumento da temperatura. Dessa forma, o indicador seria uma boa referência na avaliação dos riscos introduzidos pela alteração do sistema climático.
No caso do acordo de Paris, foi utilizado o indicador do quinto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPCC, na sigla em inglês.
Após o acordo entrar em vigor em 2015, o foco da política climática internacional passou a ser o progresso de sua implementação e o sucesso - ou não - das medidas adotadas para alcançar as metas. Um elemento fundamental para esse tipo de avaliação é o monitoramento da evolução no tempo da temperatura média global.
Entretanto, não há, ressaltam os pesquisadores, um método único estabelecido e acordado para acompanhar a evolução da temperatura média global. Pelo contrário, diferentes métodos produzem estimativas discrepantes, com diferenças significativas.
O estudo investigou distintos indicadores de temperatura produzidos pela comunidade científica. Utilizando o indicador adotado pelo IPCC como referência, explorou-se as diferenças de outros indicadores em termos do aumento da temperatura média global.
O resultado mostrou que as projeções variam conforme o tipo de indicador e método adotado. No cenário em que o IPCC projetava um aumento da temperatura média global de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, a diferença foi de até 0,2°C em relação a outros indicadores.
Apesar de parecer pequena, a diferença implicaria em uma superestimativa do orçamento de carbono correspondente a cerca de 10 anos de contínuas emissões de gases de efeito estufa nos mesmos níveis de 2015. Ou então um aumento aproximadamente 10% maior no nível médio do mar em 2.100.
O objetivo da política climática internacional é evitar impactos das alterações climáticas. Se as projeções do aumento da temperatura média global variam de acordo com o indicador e a metodologia, à comunidade científica cabe a responsabilidade de comunicar apropriadamente as diferenças, concluiu o estudo.
E, se possível, fornecer os ajustes necessários.
Mais informações: Global mean temperature indicators linked to warming levels avoiding climate risks
Imagem: adaptado da Figura 1 do estudo - gráfico comparativo das diferenças das projeções de três tipos de indicadores da temperatura média global (representados pelos eixo vertical) com o indicador do IPCC (representado pelo eixo horizontal). O indicador marcado pela cor laranja projeta aumentos semelhantes ao do IPCC. Aqueles indicados pelas cores azul e vermelha projetam um aumento da temperatura distinto do indicador do IPCC.
Diferentes indicadores da temperatura global
