Maior incidência de fogo no sul

Maior incidência de fogo no sul
Os incêndios provocados por relâmpagos devem aumentar nas zonas temperadas do hemisfério sul do planeta sob a influência do aquecimento global, aponta estudo de pesquisadores de universidades da Austrália e dos Estados Unidos.

O estudo analisou dados sobre a ocorrência de queimadas causadas por raios em todo o hemisfério sul, investigando a influência de dois principais fatores: o aumento da temperatura e a influência de ciclos climáticos naturais, como o El Niño/ La Niña, o Dipolo do Oceano Índico e o Modo Anular do Sul. Também se projetou a influência das mudanças futuras desses fatores sobre a frequência de incêndios.

O ciclo do El Niño/ La Niña consiste na inversão periódica da temperatura das águas superficiais da região leste e central do Oceano Pacífico. O Dipolo do Oceano Índico constitui um fenômeno semelhante que ocorre, como o próprio nome sugere, entre o norte e o sul do oceano Índico.

O Modo Anular do Sul, também denominado de Oscilação Antártica, diz respeito ao padrão circular de vento que envolve o continente antártico. Esse fluxo de vento transporta umidade para a região sudoeste de todos os continentes do hemisfério sul, e oscila entre fases positivas e negativas.

Durante a fase negativa do Modo Anular do Sul, o cinturão de ventos se expande, levando mais umidade e chuvas para a Austrália e o sul da América do Sul e da África. Na fase positiva, os ventos se contraem na direção da Antártica, deixando as regiões acima mais secas.



O gráfico traz a comparação da quantidade de queimadas registradas no século 21 em comparação com as duas últimas décadas do século passado. Fonte: adaptado da figura 2 do estudo


A análise dos dados mostrou que os ciclos naturais exerceram uma influência maior nas primeiras décadas do século 21 do que nas duas últimas décadas do século passado. Em particular porque o Modo Anular do Sul apresentou recentemente o predomínio de fases positivas em função do aquecimento e do buraco na camada de ozônio.

Gráfico do índice do Modo Anular do Sul (fase positiva em vermelha, negativa em azul) e o número total de incêndios florestais no hemisfério sul. Fonte: adaptado da figura 2 do estudo.


Segundo os pesquisadores, o inverno das regiões temperadas do hemisfério sul ficou menos chuvoso. A umidade do solo, em consequência, diminuiu. Por outro lado, as primaveras e verões mais quentes elevaram a evaporação, tornando os solos e a vegetação mais secos. Essa combinação fez aumentar a frequência de queimadas provocados por raios.

Nesse sentido, o aquecimento global causou alterações no sistema climático que intensificaram a relação entre ciclos climáticos naturais e a incidência de fogo em todo o hemisfério sul.
 



Gráfico com os índices registrados do Modo Anular do Sul e aqueles projetados até 2.100. Fase positiva indicada em vermelho e negativa, em azul. Fonte: adaptado da figura 2 do estudo.


As projeções sugerem que a tendência irá se manter ao longo do século 21. Para os pesquisadores, oceanos mais quentes, temperaturas mais altas e o predomínio de fases positivas do Modo Anular do Sul continuarão a gerar condições favoráveis para que raios levem à ocorrência de incêndios.

Contudo, a tendência se limitará aos locais com a presença de material combustível - como vegetação seca - e são historicamente úmidas. A influência de raios na incidência de queimadas não é relevante em locais secos o ano todo.

Fonte: Universidade de Portland
Mais informações: Climate Change Amplifications of Climate-Fire Teleconnections in the Southern Hemisphere
Imagem: Flickr/ Andrés Soliño