Os mais pobres expostos às maiores mudanças no clima

Os mais pobres expostos às maiores mudanças no clima
Os maiores impactos locais do aquecimento global deverão recair sobre os mais pobres, caso se ultrapasse a meta do acordo climático de Paris de limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Dessa forma, é preciso investir na adaptação às mudanças climáticas para se evitar o aumento da pobreza, aponta artigo de pesquisadores de universidades da Austrália e do Reino Unido.

Os pesquisadores investigaram a relação entre a tendência de longo prazo de alteração do clima, denominada de sinal, e a variabilidade natural, denominada de ruído. A relação sinal-ruído tem sido um indicador utilizado para identificar o momento em que a tendência de longo prazo se sobrepõe à variabilidade, instituindo um novo regime climático.

De acordo com o artigo, a fauna e a flora das zonas tropicais seriam mais vulneráveis às alterações introduzidas pelo aquecimento. Isso se deveria porque, nessas regiões, o clima é menos variável, com diferenças menos marcantes entre as estações do ano. As espécies se adaptaram às condições mais estáveis e estariam, dessa forma, mais expostas a impactos adversos das mudanças no clima.

Utilizando um conjunto de modelos climáticos, os pesquisadores simularam um cenário de aumento da temperatura média global em 1,5°C, e outro de aumento de 2°C. Eles investigaram a relação sinal-ruído em cada um dos cenários.

Para os cenários de temperatura superior a 1,5oC, as zonas tropicais apresentaram os maiores resultados para a relação sinal-ruído, indicando que nessas regiões ocorriam as alterações no clima mais perceptíveis. Nas zonas extratropicais, mesmo experimentando um sinal semelhante, por causa da maior variabilidade do clima a relação sinal-ruído foi menor.

O gráfico mostra a relação entre a média da relação sinal-ruído e o PIB per capita de diversas regiões geográficas do planeta. Quanto menor o índice da relação sinal-ruído, menores as mudanças no clima. Fonte: adaptado da figura 1 do artigo.


Ao cruzar os resultados das simulações dos cenários de temperatura superior a 1,5oC com dados de população e produto interno bruto - PIB - dos países, identificou-se que a renda das pessoas variou em proporção inversa à intensidade da relação sinal-ruído. Os países mais ricos experimentariam menores mudanças climáticas, enquanto que países mais pobres, concentrados na zona tropical, conviveriam com marcantes alterações no clima local.

Foi o caso, por exemplo, da República Democrática do Congo, um dos países mais pobres do mundo. A alteração no clima local, estimada a partir da relação sinal-ruído, seria o dobro daquela projetada pelos modelos para o Reino Unido.

Os pesquisadores também analisaram a exposição dos 20% mais ricos da população mundial às projeções da relação sinal-ruído. Observaram uma grande diferença: em média, as regiões habitadas pelos 20% mais ricos veriam uma relação sinal-ruído de em média 0,94, enquanto que, para o restante da população, o resultado foi 35% maior, 1,3.

Limitar o aquecimento global à 1,5°C traria grandes benefício para os países de menor renda. Perder a meta, alertou o artigo, implicará em expor os mais pobres à alterações no clima mais significativas, em comparação com os mais ricos. Nesse caso, é fundamental expandir o apoio à medidas de adaptação.

Mais informações: The Inequality of Climate Change From 1.5 to 2°C of Global Warming
Imagem: adaptado da figura 1 do artigo - as maiores mudanças na temperatura em relação à variabilidade natural ocorrem nos trópicos. O mapa traz a média das simulações obtida para a relação sinal-ruído do cenário de 1,5 a 2°C de aquecimento.