O acordo climático de Paris estabeleceu a meta de manter a temperatura média global bem abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais, com esforços para 1,5°C. Para tanto, haverá a necessidade de cortes drásticos de emissões de gases de efeito estufa até 2050.
Uma avaliação a respeito do cumprimento das metas estimou que, a partir de 2020, as emissões globais teriam de cair pela metade a cada década. Além disso, tecnologias de sequestro e armazenamento de carbono precisariam ser desenvolvidas e iniciar a operação após 2050. Nesse cenário seria possível alcançar a meta de 1,5°C.
De acordo com o estudo, aproximadamente 70% das emissões globais de gases de efeito estufa ocorrem por meio da liberação de dióxido de carbono - CO2 - pela queima de combustíveis fósseis, incluindo carvão, gás natural e petróleo. Nesse sentido, limitar o aquecimento global exigiria manter os combustíveis fósseis no solo. Tecnologias de captura e armazenamento de carbono podem contribuir apenas marginalmente para mitigar as emissões.
Mas o panorama atual do setor energético mundial não mostra qualquer sinal de mudança. Apesar da rápida expansão das fontes renováveis na última década, a participação dos combustíveis fósseis na demanda global de energia permanece inalterada, em torno de 80%. Grandes reservas de combustíveis fósseis, especialmente carvão, permanecem inexploradas.
Os pesquisadores buscaram analisar em detalhes as tendências no uso de combustível fóssil, investigando a relação entre reservas nacionais de combustíveis e as tendências no uso e na implementação de energia renovável. Foram avaliados 10 países individuais - Austrália, Brasil, Canadá, China, Alemanha, Índia, Japão, Rússia, EUA, Venezuela -, além de duas regiões, a União Européia e o Oriente Médio.
O carvão se mostrou como o principal tipo de combustível fóssil em termos de reservas ainda inexploradas.
Para cada um dos países e áreas estudadas, os pesquisadores levantaram dados da demanda de energia primária, entre 2004 e 2015, proveniente de combustíveis fósseis e de energia renovável.
O estudo identificou uma tendência de crescimento constante na demanda de energia primária de combustíveis fósseis no Oriente Médio, na China, na Índia e na Venezuela. O crescimento mais intenso, tanto em termos absolutos quanto em percentuais, ocorreu na China, ao mesmo tempo em que a participação das fontes renováveis diminuiu.
O consumo primário de combustíveis fósseis da Índia subiu 82% entre 2004 e 2015, enquanto que a demanda de renováveis registrou uma queda de 6%. No Oriente Médio, onde o consumo primário de energia renovável é praticamente inexistente, a demanda originada de combustíveis fósseis aumentou 54% desde 2004. A Rússia experimentou um aumento modesto, de 6%, no consumo primário de combustíveis fósseis.
Entre os países ricos em reservas, os Estados Unidos constituiu a única exceção. A substituição do carvão pelo gás natural, associada a um declínio de 16% no consumo de petróleo, causou uma redução na demanda primário de combustíveis fósseis.
Tanto a Austrália quanto a Venezuela tiveram um crescimento no consumo de combustíveis fósseis entre 2004 e 2013 , a primeira de 9% e a segunda de 29%.
De modo geral, o estudo registrou que o crescimento no consumo de combustíveis fósseis foi significativamente maior em países e regiões ricas em reservas do que naqueles pobres em reservas. Isso levou os pesquisadores a concluir que a abundância de combustíveis fósseis representa uma grave ameaça à mitigação do aquecimento global.
Países e regiões dotados de grandes reservas não tenderão a impor limites estritos às emissões de gases de efeito estufa ou ao uso de combustíveis fósseis. De acordo com o estudo, limitar o aquecimento transformaria as reservas domésticas, bem como parte da infraestrutura associada, em ativos improdutivos e sem valor.
Os pesquisadores recomendaram o desenvolvimento de políticas climáticas direcionadas aos países com grandes reservas de combustíveis fósseis. Elas deveriam considerar também o fluxo comercial entre os países recentemente industrializados, ricos em combustíveis fósseis, e os países desenvolvidos, buscando estimular a redução das emissões.
Mais informações: The threat to climate change mitigation posed by the abundance of fossil fuels
Imagem: Unsplash/ Dominik Vanyi


