As mudanças climáticas deverão afetar a distribuição mundial da produção agrícola e, portanto, as cadeias de fornecimento, o comércio e o mercado de alimentos. Essa é a conclusão de um estudo realizado por pesquisadores de universidades da Austrália.
De acordo com o estudo, o comércio global de produtos agrícolas constitui um dos pilares para atender as demandas da população mundial. Os outros seriam a expansão da área de terras agrícolas e o aumento do rendimento das culturas.
Esses elementos terão de atender a uma população mundial em crescimento. Uma projeção das Nações Unidas sugere que o planeta abrigará 9,8 bilhões de habitantes em 2050. Entre 2000 e 2010, quatro tipos de alimento responderam por cerca de 66% da ingestão diária de quilocalorias por pessoa: trigo, arroz, grãos grosseiros e oleaginosas.
A atividade agrícola está diretamente ligada ao clima. Estima-se que um terço da perda de rendimento anual dos cultivos agrícolas se deva à variabilidade climática. Várias pesquisas abordam os impactos das mudanças climáticas do ponto de vista da produção.
Mas pouca atenção tem sido dedicada às interferências na rede de comércio global de alimentos. Nesse sentido, o estudo investigou as possíveis consequências da mudança climática no período entre 2008 e 2059. Foi adotado um cenário de mitigação das emissões, no qual o aquecimento global se limita a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, e outro de altas emissões, no qual a temperatura ultrapassa 2°C até 2050.
Os pesquisadores combinaram um conjunto de modelos computacionais de safras agrícolas de trigo, arroz, grãos grosseiros e oleaginosas, que simulam os rendimentos com base em modelos climáticos, com um modelo econômico. Assim, puderam projetar os efeitos futuros das mudanças climáticas sobre a agricultura e a economia mundiais.
No cenário de altas emissões, estimou-se uma perda na produtividade do arroz em torno de 10%. A produção do trigo cairia até 22%, o milho, 27%, e a soja, 11%.
As quedas se mostraram menores no cenário de mitigação das emissões de gases de efeito estufa. O principal resultado disse respeito à uma possível sinergia entre limitar o aquecimento e manter a estrutura da rede de comércio agrícola mundial mais distribuída.
Isso porque, no cenário de altas emissões, a rede de comércio agrícola se tornou mais centralizada, com algumas regiões dominando o mercado mundial. A concentração representaria maior vulnerabilidade da produção e do transporte de mercadorias agrícolas.
Por sua vez, o cenário de baixas emissões apresentou uma produção agrícola mais estável e diversificada. Com isso, a estrutura da rede de comércio global de alimentos era mais distribuída e mais resiliente aos impactos das mudanças climáticas.
O estudo se limitou a verificar a influência do clima e não incluiu outros fatores socioeconômicos, como recessões ou questões geopolíticas. Quanto mais distribuída a produção e o comércio de alimentos, menos vulnerável eles serão ao aquecimento do planeta.
Mais informações: Porfirio, L.L., Newth, D., Finnigan, J.J. and Cai, Y., 2018. Economic shifts in agricultural production and trade due to climate change. Palgrave Communications, 4(1), p.111.
Imagem: Unsplash/ Peter Gonzalez
Mudanças no comércio de produtos agrícolas
