Energia eólica e hidrelétrica e as mudanças do clima no Brasil

Energia eólica e hidrelétrica e as mudanças do clima no Brasil
O planejamento e a operação do sistema energético brasileiro não leva em consideração os impactos do aquecimento global, alertou artigo de pesquisadores brasileiros. É urgente introduzir nos estudos do setor a utilização de cenários futuros de mudanças climáticas.

A geração de eletricidade por usinas eólicas e hidrelétricas está diretamente associada às condições meteorológicas. O modo como as duas formas de geração interagem também depende das variáveis climáticas.

Segundo o artigo, na região nordeste do Brasil, a maior produtora de energia eólica, a intensidade dos ventos aumenta durante o período seco do ano. Dessa forma, quando as usinas hidrelétricas dispõem de menos água para gerar energia, as usinas eólica podem produzir mais por causa dos ventos mais fortes.

O contrário se observa na região sul, a segunda maior produtora de energia eólica. Lá, a intensidade dos ventos sobe durante os período chuvoso, quando as usinas hidrelétricas podem produzir no máximo de sua capacidade. Todavia, no sul o período de maior intensidade do vento coincide com períodos secos em outras regiões do país.

Como o setor energético brasileiro integra todas as regiões do país através do Sistema Interligado Nacional - SIN -, do ponto de vista nacional a produção eólica no sul também é complementar à geração hidrelétrica.

Os pesquisadores investigaram se a complementaridade entre as fontes eólica e hidrelétrica sofreria impactos das mudanças climáticas. A análise teve como foco 8 localidades, distribuídas nos estados da Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul.

Combinando um conjunto de modelos climáticos, eles projetaram quatro diferentes cenários, levando-se em conta a precipitação e a velocidade do vento em cada localidade. Cada cenário representou uma trajetória de emissões futuras de gases de efeito estufa.

As projeções indicaram que, na região nordeste, a geração das usinas eólicas continuaria a complementar a geração de eletricidade pelas usinas hidrelétricas, mas com menor intensidade. As fontes eólicas se tornariam uma alternativa fundamental para a região, frente a condições climáticas mais secas.

O artigo ressaltou que a geração eólica, durante o período seco do nordeste, contribui para o atendimento da carga regional, reduzindo o custo da geração elétrica. Mas a redução da correlação entre a geração eólica e a geração hidrelétrica pode elevar a participação de fontes termelétricas no futuro, elevando os custos da expansão do setor.

No caso da região sul do país, registrou-se uma diminuição na quantidade de energia gerada no mesmo período pelas fontes eólicas e hídricas. Ainda assim, a região manteria a posição de exportadora de energia durante os meses do ano em que as chuvas e a intensidade dos ventos aumentam.

A alteração na correlação de fontes eólicas e hidrelétricas minimizaria a necessidade adicional de interligação entre as regiões sul e sudeste.

As mudanças climáticas são uma realidade, ressaltou o artigo. Cenários futuros devem ser incorporados pelos agentes nacionais do setor, como a Empresa de Pesquisa Energética - EPE - e o Operador Nacional do Sistema - ONS.

Mais informações: Lima, J. M., Lima, L. M., Queiroz, A. R., & Scheredere, N. Complementaridade Energética Futura Considerando Efeito da Variação Climática. In: XIV Symposium of Specialists in Electric Operational and Expansion Planning, 2018, Recife.
Imagem: Flickr/ Antonio Florêncio