As projeções das mudanças climáticas futuras dependem da vegetação. Segundo o relatório, a vegetação controla os fluxos de carbono, de água e de energia entre a superfície terrestre e a atmosfera. No caso dos fluxos de carbono, alterações na quantidade de dióxido de carbono - CO2 - absorvido pelas plantas acarretará em maiores concentrações atmosféricas e, portanto, em maior aquecimento.
Estima-se que, desde a revolução industrial, a vegetação terrestre tenha removido da atmosfera aproximadamente 30% das emissões humanas de CO2.
A mudança nos fluxos de água e energia também pode provocar aquecimento. As mudanças na vegetação podem alterar propriedades como a evapotranspiração - a perda de vapor d'água pelas plantas -, o albedo ou a rugosidade da superfície terrestre.
Por exemplo, a evapotranspiração responde por cerca de 60% dos atuais fluxos de água terrestre, contribuindo para esfriar fisicamente a superfície.
Tanto a absorção de carbono quanto a evapotranspiração estão ligados ao funcionamento e crescimento da vegetação. E ambos poderão sofrer efeitos profundos e abrangentes do aumento das concentrações atmosféricas de CO2, apontou o estudo.
Todavia, há grandes incertezas a respeito da magnitude e no tipo de impacto das mudanças climáticas sobre a vegetação mundial. Além da grande diversidade inerente às formas e processos biológicas, os modelos climáticos possuem uma escala bastante limitada para projeções.
Uma das possíveis alterações é a aclimatação das espécies vegetais. A aclimatação ocorre em plantas individuais, ao longo de um curto período, como uma estação de crescimento, abrangendo uma mudança de característica de forma a se adaptar ao clima.
O estudo investigou uma das formas de aclimatação; o aumento da área foliar em ambientes de maiores concentrações atmosféricas de CO2. Os pesquisadores utilizaram um modelo computacional de fluxo de carbono, a fim de explorar como a modificação da área foliar interferia nos processos biogeoquímicos das plantas e, assim, na quantidade de carbono sequestrado.
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| Mapa de aumento da temperatura média devido à aclimatação das plantas pela alteração da área foliar. Fonte: figura 1 do estudo. |
Nos resultados do modelo, a massa foliar por área subiu em um terço com o aumento das concentração atmosféricas de CO2. Isso levou a uma redução na produtividade da vegetação global, reduzindo o crescimento das plantas. A quantidade de carbono absorvido diminuiu significativamente - cerca de 8 bilhões de toneladas a menos -, total correspondente às atuais emissões anuais originadas da queima de combustíveis fósseis.
Mas a aclimatação das plantas por meio das folhas também interferiu na evapotranspiração e na absorção de radiação solar pela superfície terrestre. O modelo indicou um aumento na temperatura média global entre 0,3°C e 1,4°C devido exclusivamente à mudança na massa foliar.
Em comparação, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática - IPCC, na sigla em inglês - aponta que a temperatura poderá subir entre 1,5°C e 4,5°C, caso dobrem as concentrações atmosféricas de CO2 (em comparação com os níveis pré-industriais).
Os modelos climáticos atuais não representam os efeitos da alteração da massa foliar e, portanto, suas projeções de aquecimento global futuro podem estar ainda mais incertas. Os pesquisadores recomendaram maior consideração dos efeitos da aclimatação nas projeções, e mais pesquisas ecológicas e fisiológicas sobre a resposta das plantas às mudanças do ambiente.
Mais informações: Kovenock, M., & Swann, A. L. (2018). Leaf Trait Acclimation Amplifies Simulated Climate Warming in Response to Elevated Carbon Dioxide. Global Biogeochemical Cycles, 32(10), 1437-1448.
Imagem: figura 3 do estudo - ilustração dos efeitos da mudança de área foliar no fluxo de carbono, absorção de radiação solar e evapotranspiração das plantas

