Evidências mostram, de acordo com o estudo, que o aquecimento está provocando mudanças climáticas em escala regional, como o aumento da temperatura, a maior intensidade da precipitação, o declínio da cobertura de neve, os riscos de secas e eventos extremos.
Um aspecto importante para o fortalecimento da resiliência às mudanças do clima, e também para o planejamento de medidas de adaptação, diz respeito a episódios nos quais variáveis climáticas diferentes se alteram ao mesmo tempo e no mesmo local. Nesses casos, elas podem reforçar uma à outra, agravando os impactos gerados.
Essa co-ocorrência de modificações em diferentes variáveis climáticas tem uma grande relevância para atividades humanas sensíveis ao clima, ressaltou o estudo. Por exemplo, afetam os mercados agrícolas e a segurança alimentar, as cadeias de suprimento ou a indústria de seguros e resseguro.
Os cientistas investigaram se o aquecimento global estaria interferindo na probabilidade de condições quentes e secas ocorrerem simultaneamente, tanto em um local individual quanto em vários locais distintos.
Eles analisaram a série de dados do período histórico entre 1931 e 2015. Foi utilizado como referência a chance média de ocorrência de eventos quentes e secos registrada entre 1961 e 1990. Com o apoio de modelos climáticos, projetou-se as possibilidade de ocorrência em cenários de altas e baixas emissões de gases de efeito estufa.
A análise identificou que, ao longo do período histórico, a probabilidade de condições quentes e ao mesmo tempo secas ocorrer dobrou devido ao aquecimento global. Em boa parte das regiões do planeta ocupadas por culturas agrícolas e pastagens, a probabilidade de anos secos e quentes também aumentou.
Por exemplo, em áreas da China e da Índia, a probabilidade conjunta de experimentar uma anomalia de temperatura e uma anomalia de precipitação negativa no mesmo ano subiu mais de 15%.
As projeções apontaram que a tendência se intensificará substancialmente nas próximas três décadas em um cenário de altas emissões de gases de efeito estufa. Os cientistas ressaltaram que o aumento da probabilidade é bem menor no cenário de baixas emissões, representando o grande benefício de limitar o aquecimento.
A crescente probabilidade de estresse climático pode ter sérias implicações. Ela aumenta a chance de que diferentes áreas do globo, ocupadas por pastagens e cultivos agrícolas, experimentem conjuntamente anos com episódios de calor e seca.
Nesse sentido, ficaria diminuída a capacidade do comércio internacional de reduzir os impactos do clima sobre a produção agrícola de uma região. Poderia haver uma maior volatilidade do rendimento, com uma frequência maior de anos de baixa produtividade.
Ao se limitar apenas a médias anuais, os resultados seriam conservadores. Os cientistas apontaram que ocorrências sazonais ou sub-anuais de calor associado à seca - por exemplo, as ondas de calor - são provavelmente mais extremos do que as médias anuais. Tais eventos causam choques no rendimento agrícola, o que não foi considerado na análise.
Outros setores da economia cuja atividade se baseia na análise estatística do clima correm risco de prejuízo, caso o aumento na probabilidade de ocorrência simultânea de variáveis climáticas distintas não seja detectado. Por exemplo, a indústria de seguros.
O aquecimento global elevou a probabilidade de estresses climáticos de calor e seca. Caso ele continue, os riscos se tornarão ainda maiores.
Mais informações: SARHADI, Ali et al. Multidimensional risk in a nonstationary climate: Joint probability of increasingly severe warm and dry conditions. Science advances, v. 4, n. 11, p. eaau3487, 2018.
Imagem: Flickr/ Fernando Stankuns

