A governança global das mudanças climáticas está em crise, e tem falhado em enfrentar e corrigir o problema. Além da deterioração do multilaterismo no cenário internacional, a governança ainda se pauta pela promoção generalizada do crescimento econômico baseado no consumismo. Parece que uma mudança de fato somente acontecerá quando se derem os impactos mais graves do aquecimento global, apontou artigo de pesquisadores brasileiros.
Após o fim da União Soviética e a queda do muro de Berlim, na década de 1990, instaurou-se uma nova ordem global. O artigo ressalta que a fase da governança global iniciada a partir de então se marcou por ideais de crescimento econômico e benefícios sociais para a população mundial. Era a época das grandes conferências das Nações Unidas - como a Eco-92, sediada no Rio de Janeiro - e dos princípios econômicos do Consenso de Washington.
Bastaram algumas décadas para o ideal de prosperidade desmoronar frente à realidade. O crescimento econômico expandiu a desigualdade social dentro dos países. A globalização da economia e comércio teve um preço muito caro: a ameaça sem precedentes ao meio ambiente, o agravamento de conflitos, e a concentração da riqueza.
Para os pesquisadores, criou-se uma situação paradoxal. Se por um lado a interdependência internacional entre os países alcançou níveis extraordinários, por outro lado a governança, tanto nacional quanto global, encontra-se desestabilizada. Diminuiu a solidariedade. Em alta, a vertente protecionista, inclusive entre os países ricos, e que coloca em cheque a globalização.
No caso das mudanças climáticas, a crise na governança global pode ter consequência severas. Manter o curso atual de emissões de gases de efeito estufa e de aquecimento global trará, como alertou o artigo, consequências desastrosas. Até 2100, o cenário mais pessimista do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas - IPCC, na sigla em inglês - indica que a temperatura média global poderá subir 5ºC acima dos níveis pré-industriais.
E muito pouco tem sido efetivamente feito para alterar o curso atual do aquecimento. O artigo afirma que a discrepância entre o conhecimento científico, que aponta para as graves consequências das mudanças climáticas, e as ações de sociedades e governos se verifica devido a dois principais motivos.
O primeiro motivo diz respeito à natureza das sociedades modernas, que tem o crescimento econômico como pilar de seu funcionamento e reprodução. Mas o crescimento da produção depende da expansão do consumo de bens e serviços. O mecanismo do crescimento via consumo ocupa um lugar central na economia política.
Empresas, governos, agências internacionais, em geral esse conjunto de atores estimula o mecanismo do crescimento via consumo, considerando-o como 'desenvolvimento'. Maior produção e maior consumo de bens e produtos implicam em uso de recursos e em produção de descartes igualmente crescentes - nos últimos quarenta anos, o uso global de material triplicou. E estima-se que irá mais que dobrar até 2050.
As emissões de gases de efeito estufa constituem um sub-produto das atividades econômicas. E elas continuam na trajetória ascendente. Após um breve período de estabilidade, entre 2014 a 2016, registraram um pequeno salto em 2017. Tendência que não deve se reverter em um contexto de crescimento. Uma pesquisa avaliou que as emissões totais anuais poderiam ficar 30% maiores até 2030.
O segundo motivo por trás da separação entre o conhecimento científico e as ações humanas seria a natureza coletiva, difusa e de longo prazo das soluções ao aquecimento global. Isso iria de encontro, de acordo com o artigo, com os interesses e a soberania nacionais.
O acordo climático de Paris fornece um exemplo. Nele, ficou estabelecida a meta de limitar o aquecimento global a níveis não perigosos. Todavia, a adesão de cada país era voluntária, e os compromissos nacionais de diminuição de emissões apresentavam grande flexibilidade. Após a apresentação dos compromissos de redução das emissões pelos países participantes do acordo, verificou-se que eles não seriam suficientes para cumprir a meta estabelecida.
Além disso, o caráter voluntário facilitou a saída do acordo pela administração recente dos Estados Unidos. O país cumpre um papel fundamental no combate ao aquecimento global, constituindo o segundo maior emissor mundial de gases de efeito estufa. E serviu de exemplo para o governo brasileiro inaugurado em 2019, que passou a adotar um menosprezo com obrigações ambientais e o negacionismo do aquecimento global.
Lidar com as mudanças climáticas exigirá instituições multilaterais fortes. O sistema internacional, no momento, não apresenta condições para lidar adequadamente com a questão. É preciso criar uma nova estrutura de governança, capaz de questionar o modo atual de desenvolvimento insustentável.
Talvez, essa mudança só venha a se dar quando se fizerem sentir, no futuro breve, as consequências do aquecimento. O mundo terá, então, de conviver com os impactos que a ciência de hoje recomenda que sejam evitados.
Mais informações: Martines, G., & Alves, J. E. D. (2019). Disarray in global governance and climate change chaos. Revista Brasileira de Estudos de População, 36.
Imagem: Pixabay
Governança das mudanças climáticas em crise
