Lacunas de conhecimento prejudicam adaptação na AL

Lacunas de conhecimento prejudicam adaptação na AL
Foto da plenária do Congresso Nacional brasileiro

Alguns países da América Latina apresentam fortes lacunas de conhecimento ligadas ao planejamento, implementação e avaliação de políticas de adaptação às mudanças climáticas. O conhecimento de medidas de adaptação é fragmentado e falta cooperação, identificou estudo de pesquisadores de universidades da Argentina e do Chile.

As mudanças climáticas tem se manifestado na América Latina por meio de, entre outros, inundações, secas, ou ondas de calor. Ao mesmo tempo, como lembra o estudo, a América Latina apresenta um grande exposição e vulnerabilidade aos impactos do aquecimento global e das mudanças climáticas.

É natural, portanto, que os países latino-americanos abram cada vez mais espaço à políticas climáticas e de adaptação nas agendas nacionais. Um dos grandes desafios, entretanto, está ligado à complexidade do tema e às incertezas dos cenários futuros de mudanças e impactos. Isso introduz a necessidade de uma grande integração entre o conhecimento científico e a ação política.

Compreendendo a falta de informações e problemas na relação de diferentes sistemas de conhecimento, as lacunas de conhecimento foram reconhecidas como uma das principais barreiras ao planejamento e implementação de medidas de adaptação às mudanças climáticas.

O estudo buscou investigar a questão no contexto da América Latina. Ele baseou na revisão da literatura existente e na aplicação de um questionário com 277 funcionários de governo, registrando suas percepções e opiniões quanto às principais lacunas de conhecimento. A pesquisa incluiu funcionários de seis países: Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Paraguai e Uruguai.

Uma das quatro principais lacunas identificadas pelos pesquisadores se encontra nos estudos e análises de políticas públicas. Verificou-se uma ausência generalizada de aspectos como indicadores de eficácia de medidas de adaptação implementadas, a presença de métodos de monitoramento das medidas, ou análises de custo e benefício de alternativas.

Outra dificuldade se referia a baixa colaboração na produção de conhecimento, pois interações entre atores e campos distintos não se mostraram sustentáveis. Uma das razões seria que, em muitos países, a abordagem da adaptação se norteia por projetos ou iniciativas específicas. Não há um processo institucionalizado e colaborativo de elaboração de políticas ou planejamento de longo prazo, afetando a integração entre as comunidades científica e política.

Lacunas também se originaram da fragmentação do conhecimento. Dessa forma, dados ligados a uma medida de adaptação específica - seja do clima, de impactos, ou análises de vulnerabilidade - podem não estar acessíveis e adequadamente integrados. O uso de dados no processo de elaboração de políticas fica enfraquecido.

Finalmente, os governos e suas agências apresentaram uma falta de recursos humanos e técnicos suficientes e qualificados. O quadro se agrava ainda mais diante da articulação entre diferentes níveis e áreas de governo. Os problemas de capacidade estatal tendem a se acentuar nas esferas subnacionais, em especial em municípios e localmente.

Os pesquisadores esperam que o diagnóstico contribua para o fortalecimento da pesquisa e das ações de adaptação na América Latina. O caminho a seguir deve se orientar pela integração e institucionalização do conhecimento e do fazer político.

Mais informações: Ryan, D., & Bustos, E. (2019). Knowledge gaps and climate adaptation policy: a comparative analysis of six Latin American countries. Climate Policy, 1-13.
Imagem: Flickr/ PMDB Nacional